quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Bullying nas aulas de Educação Física

     Em apenas duas semanas de magistério eu já presenciei algumas situações que sugerem casos de bullying nas aulas de Educação Física. Primeiramente, bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. Este termo é utilizado para indicar casos de ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato. 
     Brigas e implicâncias entre os alunos não são caracterizados como casos de bullying. Sabemos que isso é "comum" entre as crianças, só precisamos estar atentos para que isso realmente não se torne algo fora do controle. Tem gente que leva numa boa, outros que não conseguem abstrair tais gozações. Para ambos os casos, é preciso perceber o quanto isso significa para a alvo das agressões.
     Segundo Telma Vinha, doutora em Psicologia Educacional e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para ser dada como bullying, a agressão física ou moral deve apresentar quatro características: a intenção do autor em ferir o alvo, a repetição da agressão, a presença de um público espectador e a concordância do alvo com relação à ofensa. ''Quando o alvo supera o motivo da agressão, ele reage ou ignora, desmotivando a ação do autor'', explica a especialista.
     Tendo em vista tais explicações, contarei dois casos:
1º caso: Pedi para os alunos formarem duas filas. Eles se separaram em meninos e meninas, mas a fila das meninas estava muito menor. Daí perguntei se algum menino topava ir para a outra equipe, e prontamente, apenas dois meninos quiseram, enquanto os outros ficaram dizendo "não, não" com toda a convicção e certo grau de "superioridade masculina". Na mesma hora, um dos alunos ficou mexendo com eles e dizendo "mulherzinhas, mulherzinhas". Eles ficaram passados, e imediatamente eu disse: "Pode parar. Fui eu que perguntei quais meninos queriam vir pra cá; se eles vieram é porque são homens o suficiente para saber que não há problema nenhum em se misturar com meninas". Imediatamente, os dois alunos - antes acuados, sorriram e ficaram felizes, enquanto o menino provocador ficou com cara de surpresa ao ouvir minha resposta. Os demais meninos, para "provar a masculinidade", também quiseram mudar de equipes. Mas aí eu não permiti, porque não havia sido algo livre... Nesta situação, não houve caso de bullying. Foi pura implicância, possivelmente graças a toda especulação que vemos sobre homossexualidade na mídia e, quiçá, exemplos de pessoas próximas, como os próprios pais, irmãos, tios etc., que ao invés de lidarem com as diferenças, preferem ser preconceituosos...

2º caso: Em plena aula, no meio de um pique, uma das alunas, bem cabisbaixa, me pede folhas para desenhar. Perguntei o motivo, e ela disse que ninguém nunca quer brincar com ela. Insisti nas perguntas e, sem jeito, a menina me disse que todos comentam que ela tem piolho, por isso nunca se aproximam. Nem na sala de aula ninguém quer sentar perto dela. Então eu disse: "Mas você quer fazer a aula?" Prontamente ela disse que sim! Então eu apitei e disse: "Fulaninha é a nova pegadora!" Ela ficou super feliz, mas na mesma hora a turma retrucou: "Professora, ela é piolhenta, ninguém quer ficar com ela!". Então reuni toda a turma e falei que todos já haviam tido piolho um dia, e que ainda que a colega tivesse piolho (algo que eu não estava vendo), isso não era motivo de ninguém brincar com ela. Todos nós temos defeitos e limitações que precisam ser compreendidas pelos outros. Agora ela ia brincar sim, sendo a pegadora, e se alguém não quisesse fazer a atividade, que então saísse, pois assim sentiriam o quanto é ruim ser rejeitado. Neste caso, considero a ocorrência de bullying, já que quem falou teve a intenção de gozar da cara dela (fizeram isso apontando e rindo), ela é alvo dentro e fora da sala de aula diariamente, a agressão verbal foi em público (no meio dos 35 alunos que compõem a turma) e a menina se portou como concordante à ofensa recebida, já que preferiu se esquivar do que abstrair o que estava sendo dito sobre ela... 

     Uma coisa é certa: infelizmente, implicâncias mil existem durante uma aula de Educação Física. Mas nós, professores, precisamos ficar "de antenas ligadas" para que isso ocorra cada vez menos. Ao surgir algum tipo de situação, intervenha imediatamente, e em hipótese alguma se omita ou ria da piadinha de mau gosto. Precisamos ser os primeiros a dar exemplo, em demonstrar que aquilo não pegou bem, que com certeza a pessoa não gostaria que ocorresse o contrário.
     É necessário identificar os atores do bullying - autores, espectadores e alvos, pois assim as intervenções serão mais específicas. Como já comentei acima, é claro que existem brincadeirinhas e implicâncias entre as crianças, mas é necessário distinguir o limiar entre uma piada aceitável e uma agressão, e geralmente percebemos a diferença a partir das reações que a vítima apresenta: desânimo, exclusão, recuo em todas as situações-problema etc.

Referências:

21 perguntas e respostas sobre bullying. Revista Nova Escola. Disponível em: 
< http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/bullying-escola-494973.shtml>

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